sábado, fevereiro 19, 2011

Mario Soares e a agressão na Marinha Grande


Há 25 anos atrás, Mário Soares é vítima de uma emboscada do PCP (aka sindicato vidreiro) na Marinha Grande e esse é, sem dúvida, o momento decisivo de viragem da sua primeira campanha presidencial. Circunstâncias que me mostram a mim, um jovem imberbe e assustado a gritar esganiçadamente (nesta página, clicar onde diz vídeo e, por volta do minuto quatro, da reportagem ele aparece) levam-me a partilhar com os leitores esse momento histórico, já que a ele, por forças das imagens, claro está, sou sistematicamente impelido a apresentar relatos individualizados. Fica, portanto, aqui um pouco dessa história.
Nessa época, a Marinha Grande era uma cidade capturada pelas “massas operárias” do PCP. Grandes fábricas vidreiras obsoletas empregavam milhares de pessoas, desde tenra idade, e a ausência de gestão e liderança nas mesmas transformaram-nas no principal elemento de resistência de rua aos governos, quaisquer que eles fossem a ponto de, nessa época, ter sido colocada uma placa à entrada da cidade a dizer Moscovo. 
Foi neste ambiente carregado que estudei na Escola Secundária e, foi lá também, que escrevi o meu primeiro artigo contra o comunismo na revista da escola – a Visão – que me granjeou, de imediato, o ostracismo da professora de inglês, mulher de um conhecido advogado, velho companheiro de causas do PCP.
Como é fácil de imaginar, o PS e os socialistas, eram o principal alvo de ataques do PC. Faziam-se piquetes nocturnos para que a festa anual do PS, nas Árvores, em S. Pedro de Moel, não fosse vandalizada e a romagem de uma delegação de socialistas ao cemitério local para homenagear os resistentes do movimento do 18 de Janeiro de 1934 era recebida, quase sempre, à porrada pelos vendilhões da doutrina comunista local.
Foi, pois, neste ambiente de profunda hostilidade que iniciei a minha actividade política, sendo certo também, que este clima pesado aguçava, ao limite, o nosso desejo de confrontação política que era, como não podia deixar de ser, física e pessoal.
É neste quadro que se dá a campanha presidencial.
No PS não havia ninguém para conduzir o velho Mini Morris azul do Zé Manuel Fernandes para anunciar a vinda de Mário Soares. Ofereci-me de imediato. Eu e o meu primo “Quim Gaiteiro”, na véspera, calcorreámos a cidade a anunciar a visita sob forte contestação das milícias do PC que, à porta das fábricas (IVIMA, Manuel Pereira e CIVE), tudo arremessavam contra o velhinho Mini
No fim do dia, sãos e salvos, rejubilámos com o feito. Voltamos a casa com o propósito de voltar no dia seguinte para reforçar o anúncio da vinda de Mário Soares. Pouco tempo antes da chegada, vindos da Vieira, no Citroen 2 cv amarelo do Paulo Vicente, já não conseguimos passar. Junto à sede do Sindicato Vidreiro centenas de pessoas, munidos com todo o tipo de utensílios próprios das manifestações do PC, deslocavam-se para a Praça Stephens, local da chegada. Parámos logo ali e já não chegámos à sede do PS onde era suposto pegar no Mini Morris que tinha a aparelhagem de som. Foi, pois, o Zé Manel que na minha ausência pegou no carro e que, sem dúvida, com grande coragem física, fez os últimos momentos do anúncio da visita. Foi agredido brutalmente e ainda teve tempo de se deslocar à Martingança, meia dúzia de km mais à frente, para dizer a Mário Soares que se continuasse a viagem o matavam.
Soares ouviu e prosseguiu a sua viagem, naturalmente.
Este é o momento e a decisão que conta.
O resto interessa pouco, já muito pouco.


João Paulo Pedrosa

2 Comments:

At 21/2/11 16:10, Blogger Flor do Liz said...

Ao ler este post, fiquei toda arrepiada.
Veio-me á memória esses tempos terríveis.

 
At 22/2/11 00:11, Blogger Antonio said...

Lembro-me bem desse dia. À noite houve jantar comício no Casarão em Leiria, onde estive, e logo ali me apercebi que Soares iria ser o Presidente de todos os portugueses.
Em relação ao comportamento dos marinhenses, ligados ou não ao PC, eu bem os compreendo. Assisti em 73 à sua reacção à farsa eleitoral de então, em 74 lia os manifestos deixados nos bancos do jardim com o pronuncio da liberdade, assisti aí, na praça stephens ao desenrolar da história da democracia portuguesa, nas escola calazans duarte às movimentações ideológicas de um povo livre e insatisfeito.Tudo para dizer que compreendo bem os marinhenses independente da sua ideologia. Povo sofrido, empreendedor e amante da liberdade. Não nasci nem vivi na Marinha Grande. Estudei e trabalhei. Mas se me fôr permitido, considero-me Marinhense.

 

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